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domingo, 27 de agosto de 2017

Fenomenologias 'lagunensis'

(Publicado primeiramente aqui.)



Eu mesma já vi que Laguna tem umas ruas mágicas.
É coisa que se repete, não é fenômeno raro.
Nunca é no point, na cena, nunca é onde tá bombando de gente.
É igual leite fervendo, é sempre quando ninguém tá olhando.
(Ou, de qualquer forma, ninguém sabe, ninguém viu. Ouviu?, ninguém viu!)
É incrivelmente real: a materialização de objetos mega deslocados ao alcance das paisagens mais feras da cidade.
Não falo das árvores que lotam a praia depois das enchentes nos rios: falo apenas da chocante invasão de artefatos humanos. Já vi televisão, em pleno verão, tomando banho de sol. Até que ela não é boba, super lugar. Deve ter chegado de madrugada: ninguém sabe, ninguém viu. E as de tubo, senhorinhas tevês, andam brotando por tudo que é terreno baldio, inclusive, é claro, pertinho da praia, com seus super metais pesados loucos pra espalhar seu amor pelo mundo. Artefatos que adoram uma beira-mar, coisa mais linda de se ver. Deve ser a convivência com o povo caiçara, pegam uma paixão pela orla, depois já nem conseguem ir embora.
Uma vez vi um computador tão diferente, escultural, arredondado, retorcido, pós-moderno, pós-fogueira, exclusivíssimo, puro luxo, fenomenal. 
Já vi um montão de cadeiras e carteiras escolares, com selo de patrimônio e tudo, mofando num galpão institucional abandonado. Acho que gazearam aula e depois se esqueceram do caminho da roça, digo, da escola.
É cada uma que eu vejo em Laguna. 
Já vi obra de arte metade pra fora metade pra dentro da cesta de lixo. Deve ter tropeçado enquanto passeava distraída na calçada, coitada, caiu e ficou, ninguém nem pra ajudá-la, entalada como uma tia velha e bunduda caída de bunda numa bacia bem funda.
Já vi, essa ninguém vai acreditar, e nem deveria: aliás não fui eu que vi, foi a minha vizinha: em plena lixeira do condomínio, pois não é que surgiram duas irmãs gatinhas recém-nascidas? Juro, entre sacos poeirentos, sacolas fedidas, cacos de vidro e meia dúzia de caraminholas. Lili e Mimi são os nomes delas, que hoje vivem como rainhas. Moram de frente pra minha porta, juro que não é história da carochinha.
Já vi tanto sofá refestelado no meio do mato… Olhando pra onde? É claro que é pro nascer do sol ali no fundo do mar. Eita mobília contemplativa, é coisa de se estudar.
Mas olha que coisa fantástica, vejo toalha de crochê nascendo na grama em calçadas, becos, terrenos baldios… Ninguém seria doente de jogar fora as toalhinhas de crochê da vó… É claro que se elas estão se espalhando por aí, só pode ser porque os agrocientistas inventaram um jeito de as semear. Pé de crochê, essa é tão fabulosa que nem minha amiga Velhinha de Taubaté iria acreditar.
Se já é estranho esse monte de tralha deslocada em terra firme, imagina a bizarrice, se fosse verdade, a tal Grande Ilha de Lixo no Pacífico. Maior que Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo juntos. Eu, hein? Essa notícia sempre me pareceu fantasiosa demais. 
Mas só até semana passada, quando avistei, numa dessas ruas lagunenses de quina com a beira-mar, uma nova espécime rara. Um peixe que anda em bando pelo meio da estrada! Talvez tenha sofrido alguma séria mutação e por isso não queira mais saber de mar, muito menos de rio. Rio consternada de vê-los ali anoréxicos, tão magrinhos, pele e osso, digo, couro e espinho. Ou será que vieram no vácuo das garrafas pet da Ilha de Lixo do Pacífico? Baita travessia… Ainda bem que vieram em bando, assim é melhor pra defenderem seu espaço na água. Vai ver quando chegaram na costa pegaram impulso de novo, se arremessaram pra fora da linha da maré alta… Goooool? Será? Pra foooora, gritaria um locutor bizarro que acompanhasse atento e de ponta a ponta a longa trajetória, do Pacífico a Laguna, ou, melhor, do começo ao fim da história. Pensando bem, não é má a ideia desse bando de dar uma banda do lado de fora. Aqui tem tevê, tem sol, tem sofá, tem gente civilizada pra conhecer, e, procurando bem, no meio dos restos tem de tudo que se possa precisar. Diz que de fora se vê melhor, e se embaixo d’água tá ruim de espaço, aqui no camarote tá show pro cardume magrelo contemplar a limpeza, a lindeza, a riqueza que tem nesse mar.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

"Floreios" nas Histórias em Postais

Deixo aqui o link para o resultado de minha participação na I edição de HISTÓRIAS EM POSTAIS do Correio do Porto (Portugal), projeto com uma interessante proposta/pesquisa acerca da existência de uma "literatura postal". Agradecendo ao amigo escritor Igor Fabian por compartilhar a notícia desta convocatória. (Arte visual: téc. mista sobre papel, 2016, produzida especialmente para o projeto; poema publicado em 2014 pelo Sinergia (Florianópolis), em edição impressa resultante de seu oitavo concurso literário.

UPDATE:

Aqui a entrevista para o Correio do Porto decorrente da Convocatória.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Bagagem crônica

De novo aconteceu: a gente nem bem começa a viagem e já tá se atacando pelo excesso de bagagem. Isso que dessa vez nos demos o desafio de cada um vir com apenas uma mochila. Saracotear em trocentos estados de frio e calor entre sul e nordeste por trinta e cinco dias com meras duas mochilas? Porque não custa sonhar. Mas é lógico que bem antes da metade da viagem, embalando as tralhas de Teresina pra São Luiz, a gente já tem dois baita volumes a mais. Tipo a casa nas costas. (Acabo de me dar conta de que o meu arsenal de histórias pessoais envolvendo o assunto bagagens certamente encheria páginas e páginas de um livro bizarro e volumoso.) Cada vez que sou provocada sobre a parte que me cabe no crescimento assustador da bagagem, contra-ataco com o quase único argumento consistente que trago na ponta da língua: "Mas pra que tu foi trazer uma toalha de banho, um CASACO DE COURO e um TRAVESSEIRO que ocupa quase uma mochila inteira, se a viagem é quase toda no nordeste? Pode deixar que não tem perigo de ficarmos numa mísera pousada que não disponha de travesseiro e toalha". Ele esperneia que os três itens juntos cabem no mochilão dele, onde ainda sobra espaço até pra coisas minhas. Eu tento manter a linha argumentando que ele, agindo assim, é o próprio Débi em viagem na cena em que sai pra comprar "só umas coisinhas básicas", porque o Lóide o adverte de que não estão podendo gastar, e logo ele volta com um baita chapéu mexicano na cabeça e catorze cataventos de papel nas mãos. Nesse ponto exato da discussão estamos em Alcântara-MA, sentados num banco na praça da Matriz, que deduzo ser a principal ruína dessa incrível cidade histórica de casarios "que parou no tempo". Só deduzo, pois não contratei uma visitação guiada como desejava, justo pela insistência dele em me acrescentar que "Tu nunca sai de férias, o que tu faz é viagem de estudos, pra que isso tudo? Comé que tu descansa desse jeito? Toda vida esse excesso de bagagem e informação, a gente nunca descansa, a gente sempre volta pra casa no bagaço, que inferno, um dia tu ainda tem um infarto!" Só pra baixar a tensão da conversinha amigável, ok, aceito mea culpa, pronta pra seguir viagem me sentindo a maior analfabeta cultural daquela cidade, onde, afinal, fizemos ótimos outros passeios, ok, ok, não é o fim do mundo não se inteirar das particularidades que tornam mega pitoresco o lugar incrível e longérrimo de casa onde super excepcionalmente se está. Dito isto, a gente se olha na intolerância dum entendimento assim meio enviezado, sob a impossivelmente cínica promessa mútua de que não poderemos adquirir mais nada de volume no resto da viagem, que tá só na metade. Ok de um lado e de outro. Mas logo que a gente vira a esquina, tem um vendedor de artesanatos e antiguidades com peças na calçada. Vamo vê? Dez minutos depois, a gente segue pra pousada com DUAS ENORMES CHAVES DE FERRO na bolsa. No meu coração só cabe o feitiço de sentir séculos e séculos de histórias impregnados nessas duas chaves imensas que, explicou o vendedor, fizeram parte de antiquíssimos casarões dos quais talvez já não restem nem mesmo as ruínas.
Seguimos viagem cheios de uma ridícula gentileza transbordante, "eu pago, tu carrega", isso dito assim entremeado por sorrisos meio piegas e até abestalhados, cada qual não cabendo em si de tanta alegria pelo garimpo excepcional, uma verdadeira serendipidade, apesar de não precisarmos de uma balança pra saber que o par de chaves gigantes vai aumentar, tranquilamente, bem mais de dois quilos no tumulto volumoso que sempre é a nossa bagagem.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

MATÉRIA DE POESIA

https://issuu.com/ocorreio/docs/ed_1383


Conheci uma parede tatuada de tempo
que na mesma hora sequestrou meu olhar
em ca sa men to

eu ali, me
desconstruída
i n t e i r a
ao pé de si
com a câmera na mão
sem cuidar os carros
sem dizer um não

não só pra luminescência
das palavras pintadas
e há muito
rasgadas de vento
– doces velas cristais –
e outras
mas pro arranjo que elas fazem
com a exclusivíssima paleta
de mofos
em seis ou sete tons
ricamente desiguais
sobre tijolos de barro com mato
e samambaias lhes brotando
de por dentro

bordado fino
de poeira
e letras
velhas
já um pouco
cínicas
e risonhas
de muito
dormirem no
sereno

e nisso eu tateio no bolso
dentre trevos e recibos
uma leve incerteza florescida:

(enxergasse o Manoel de Barros
a sequência de três minutos e tal
que dura de ponta a ponta
esse nosso casamento

quiçá essa pintura renderia
alocada em seu caderninho de ocasião
e sem moeda com que se lhe pagasse
a peso de nuvem alta
uma over
dose bruta de
matéria de poesia)




terça-feira, 23 de junho de 2009

proporção


Não vou dizer que é desproporcional, pois desconheço as particularidades botânicas e mesmo o nome da planta. Mas assim de passagem arrisco dizer, pelo menos, que é uma proporção bem curiosa.





[Em Laguna, de frente pra orla do Mar Grosso]

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

No centro de BH


O que tem mais força, a matéria viva ou a matéria bruta? E é questão de força? De resistência? De quê?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Trilha do Rio do Boi

Esse foi o programa-aventura de que participei ontem, no circuito de canyons do Parque Nacional dos Aparados da Serra. E poderia ilustrar a postagem com imagens pitorescas, de paredões de setecentos metros formados pelo canyon Itaimbezinho, fendas gigantes cravadas na terra e nós lá embaixo, quatorze pessoas fugindo da rotina [...] com direito a banhos de cachoeira, piqueniques e banhos de sol pelo caminho. Mas antes de registros mais óbvios, prefiro trazer à luz do meu blog iniciante uma imagem que me chamou mais atenção que quase tudo: a vegetação, na trilha do Rio do Boi, firma-se basicamente em pedras, que é basicamente o que há por lá, milhões de bilhões de trilhões de pedras e mais pedras. Aquelas árvores enormes enraizadas em pedras me deram a noção exata da força do impulso da vida, agarrando-se ao que for possível para sobreviver e ser o melhor que puder. E que bom esse instinto, nas plantas e em nós, onde quer que haja VIDA. Carpe diem!