sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Desfoque

A vida inteira teve pânico de mar revolto. O vacilo foi confiar na calma turva e movediça da lagoa.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Opções

Sim ou não, bastava escolher. Mas era indeciso demais.

terça-feira, 23 de junho de 2009

proporção


Não vou dizer que é desproporcional, pois desconheço as particularidades botânicas e mesmo o nome da planta. Mas assim de passagem arrisco dizer, pelo menos, que é uma proporção bem curiosa.





[Em Laguna, de frente pra orla do Mar Grosso]

domingo, 31 de maio de 2009

na cama

acordei nas seis horas
do despertador
tinha mais o que fazer
mas inda era cedo
e tão confortável
voltei a dormir

um ruído qualquer
me reacordou
às onze e meia
nem sei de quando
era meio tarde
mas tinha tempo
e fiquei dormindo

despertei, enfim
nem sei que hora
dum dia qualquer
do ano dois mil
e setenta e quatro
me vi no espelho
e – bruscamente
não tinha mais
t e m p o

domingo, 19 de abril de 2009

laranja e amarelo











‘não quero isso aqui!’, pensou
o dono do maracujazeiro
onde a borboleta colava
na folha escolhida
um a um, delicada
sua porção de ovos

cada ovo uma lagarta
que só com muita folha-comida
vira pupa, vai pro casulo
e se metamorfoseia
em borboleta de asa laranja

‘essa praga de lagarta!’
xingou logo o plantador
que gosta é do amarelo-ouro
na casca e na polpa das frutas

mas até em pequenos mundos
em cada ecossistema
já se sabe
há umas brigas por território

deseja-se o ouro
no miolo dos maracujás
deseja-se o laranja
nas asas da borboleta

domingo, 5 de abril de 2009

todos os dias

Querido meu Deus,
muito, muito, muito grata por tudo. Inclusive pelas dificuldades. Muito grata.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

essa gente

‘essa gente’, eu pensava
mas nisso eu era bem nova
era quando eu ainda
já sabia de tudo

essa gente que se perde
em cada coisa pequena
que gasta o tempo
aguando planta
limpando casa
lavando roupa
criando filho
criando bicho
e a vida se esvai

eu olhava essa gente
por fora da moldura
era uma foto onde eu não cabia
até orgulho isso me dava
tudo meu é que prestava
tudo meu é que era bom

eu, quando sabia de tudo
tinha pena dessa gente
que vivia em vão

hoje volto mais cedo
por medo de o jasmim secar
e celebro um tempo novo
de releituras
de limpezas
na casa, nos caminhos
na visão
nos outros sentidos
plenitude
em cada hora mínima
lavando chão e achando bom

hoje eu não sei
mas bem desconfio
- essa gente quando me olhava
também tinha pena de mim

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

mãos vazias










um sol se indo
eu te ofereço
ou uma nuvem
ou desenho abstrato
– sempre gostei de abstrato –
ou sementes variadas
ou água fresca
servida nas mãos
ou só as mãos
carregando nada

tu, que tens olhos bons
já viste a lindeza
de mãos vazias
compondo tela
de pintura muda?

tu, que és tanta luz
– e eu sempre soube –
e tens palavras
que antes de dizeres
eu não sei que tens
e só as descubro
em cada agora
em que me chegam
– cada vez é um agora –
e me espanto

tu conheces, afinal
o gosto, a hipnose
de mãos em repouso
oferecendo o nada
em calmo e silencioso
estado de graça?

pois fica com o nada
que tenho agora nas mãos
ele já é teu
sê gentil como sempre
e cuida bem desse nada
que me é tão precioso

e o que não tenho nas mãos
reflete o rosa e o laranja
e os outros tons furta-cor
desse sol que quase todo dia
se deita na minha lagoa



Lagoa de Santo Antônio dos Anjos de Laguna

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

cidade adversa

vê bem
vindos de todo lado
eles chegam aos milhares
entre dezembro e março
maravilham-se
e se vão

eu não
eu vim e fiquei
disse até mais! àquela outra
tão boa também

lá deixei tesouros
canteiros de hortaliças
oito velhas laranjeiras
em franca produção
amoreiras furta-cor
uma dálmata parindo
o tempo esculpindo o areal
das dunas da praia com ventos
tanta gente amiga
a família quase inteira
deixei até a mãe

sobretudo, vim

vim trazendo o filho
uma bagagem menor que a de sempre
um olhar de quem nunca viu
e o coração extremado
incabível
sem tamanho

é que a cidade me cativou
é que Anita me comoveu
é que a fonte me enfeitiçou
foi tudo sem palavras
mas que bom
mas que bom que vim
e que fiquei

eles vêm, eles vêm
para o verão
o carnaval
a república
para dias de bonança
e se vão

e eu prefiro
é a cidade vazia
fria fria
do outono do inverno
me apetecem com gosto
os dias e as noites
de vento nordeste
de chuva essa chuva
a lagoa sem botos

como pedir só calor e multidão
se é no tempo adverso
que minha paixão tem crédito
e meu amor é insuspeito?

na praça da igreja
livre de gente
tomada de vento que uiva
[valsam fantasmas
de gente célebre?]
circulo a figueira-relíquia
aquela
da nau do Giuseppe
e o que penso
desenha-se fiel
em meu semblante
de quem levita
estou em casa

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

labirinto de acesso

tu: castelo fincado em nuvens
fortaleza com asas
ou um símbolo melhor
e que me escapa

eu sei
[eu já sempre sabia]
devo é calar:
minha fala denuncia
a vossa nobreza
minha tanta ignorância

devo fechar os olhos
sobretudo isso:
fechar os olhos

em silêncio
e de olhos fechados
só assim
talvez
uma chance de sorte
um passo bem dado
uma pista
do teu labirinto de acesso