(Publicado primeiramente aqui.)
É primavera de 2014
eu nas pesquisas pruma arte visual
sobre aquela maniazinha
que se carrega pela vida:
querer deixar no mundo um nada que seja
uma coisinha que nos imortalize
e pra isso serve um poema,
uma piada,
uma história,
uma tela,
um biquinho de crochê
um filho
uma foto
uma boneca de pano
a dedicatória escrita num livro
uma pipa caseira
uma casinha na árvore
um souvenir de Itavuvu da Serra
uma receita especial de nhoque
pra usar nos dias vinte nove
serve até um mantra
e, na falta, serve um
bilhetinho já lido
de biscoito da sorte
(...)
escolho representar na tela
uns padrões de pintura rupestre
com a arte da pré-história mostrando
essa mania de deixar pegadas
não é coisa só de agora
(...)
nisso é que acontece
acidentalmente
cruzando google com
livros de história
a minha grande descoberta desse dia:
eu até então pensando que sambaqui
era só um monte de concha antiga
descubro que nos antigamentes
ele era espaço multiuso,
monumento, mirante, cemitério,
oficina metalúrgica e lítica
além do calcário para a construção civil
comparado em livros e estudos
às esfinges e pirâmides do Egito!
será que eles sabiam que essa concharada
tinha chance de chegar ao nosso tempo?
só sei que hoje, quando ando na praia
e vejo qualquer cacareco de marisco,
com um cantinho do olho entre
o astigmatismo e a agonia
eu olho pra trás, olho pra frente
enxergo passado, enxergo futuro
tudo assim meio bagunçado
bem aqui no meu presente.
domingo, 27 de agosto de 2017
No dia em que descobri as funções do sambaqui
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Suyan de Melo
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domingo, 31 de maio de 2009
na cama
acordei nas seis horas
do despertador
tinha mais o que fazer
mas inda era cedo
e tão confortável
voltei a dormir
um ruído qualquer
me reacordou
às onze e meia
nem sei de quando
era meio tarde
mas tinha tempo
e fiquei dormindo
despertei, enfim
nem sei que hora
dum dia qualquer
do ano dois mil
e setenta e quatro
me vi no espelho
e – bruscamente
não tinha mais
t e m p o
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domingo, 19 de abril de 2009
laranja e amarelo
‘não quero isso aqui!’, pensou
o dono do maracujazeiro
onde a borboleta colava
na folha escolhida
um a um, delicada
sua porção de ovos
cada ovo uma lagarta
que só com muita folha-comida
vira pupa, vai pro casulo
e se metamorfoseia
em borboleta de asa laranja
‘essa praga de lagarta!’
xingou logo o plantador
que gosta é do amarelo-ouro
na casca e na polpa das frutas
mas até em pequenos mundos
em cada ecossistema
já se sabe
há umas brigas por território
deseja-se o ouro
no miolo dos maracujás
deseja-se o laranja
nas asas da borboleta
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
essa gente
‘essa gente’, eu pensava
mas nisso eu era bem nova
era quando eu ainda
já sabia de tudo
essa gente que se perde
em cada coisa pequena
que gasta o tempo
aguando planta
limpando casa
lavando roupa
criando filho
criando bicho
e a vida se esvai
eu olhava essa gente
por fora da moldura
era uma foto onde eu não cabia
até orgulho isso me dava
tudo meu é que prestava
tudo meu é que era bom
eu, quando sabia de tudo
tinha pena dessa gente
que vivia em vão
hoje volto mais cedo
por medo de o jasmim secar
e celebro um tempo novo
de releituras
de limpezas
na casa, nos caminhos
na visão
nos outros sentidos
plenitude
em cada hora mínima
lavando chão e achando bom
hoje eu não sei
mas bem desconfio
- essa gente quando me olhava
também tinha pena de mim
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
mãos vazias

um sol se indo
eu te ofereço
ou uma nuvem
ou desenho abstrato
– sempre gostei de abstrato –
ou sementes variadas
ou água fresca
servida nas mãos
ou só as mãos
carregando nada
tu, que tens olhos bons
já viste a lindeza
de mãos vazias
compondo tela
de pintura muda?
tu, que és tanta luz
– e eu sempre soube –
e tens palavras
que antes de dizeres
eu não sei que tens
e só as descubro
em cada agora
em que me chegam
– cada vez é um agora –
e me espanto
tu conheces, afinal
o gosto, a hipnose
de mãos em repouso
oferecendo o nada
em calmo e silencioso
estado de graça?
pois fica com o nada
que tenho agora nas mãos
ele já é teu
sê gentil como sempre
e cuida bem desse nada
que me é tão precioso
e o que não tenho nas mãos
reflete o rosa e o laranja
e os outros tons furta-cor
desse sol que quase todo dia
se deita na minha lagoa
Lagoa de Santo Antônio dos Anjos de Laguna
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
cidade adversa
vê bem
vindos de todo lado
eles chegam aos milhares
entre dezembro e março
maravilham-se
e se vão
eu não
eu vim e fiquei
disse até mais! àquela outra
tão boa também
lá deixei tesouros
canteiros de hortaliças
oito velhas laranjeiras
em franca produção
amoreiras furta-cor
uma dálmata parindo
o tempo esculpindo o areal
das dunas da praia com ventos
tanta gente amiga
a família quase inteira
deixei até a mãe
sobretudo, vim
vim trazendo o filho
uma bagagem menor que a de sempre
um olhar de quem nunca viu
e o coração extremado
incabível
sem tamanho
é que a cidade me cativou
é que Anita me comoveu
é que a fonte me enfeitiçou
foi tudo sem palavras
mas que bom
mas que bom que vim
e que fiquei
eles vêm, eles vêm
para o verão
o carnaval
a república
para dias de bonança
e se vão
e eu prefiro
é a cidade vazia
fria fria
do outono do inverno
me apetecem com gosto
os dias e as noites
de vento nordeste
de chuva essa chuva
a lagoa sem botos
como pedir só calor e multidão
se é no tempo adverso
que minha paixão tem crédito
e meu amor é insuspeito?
na praça da igreja
livre de gente
tomada de vento que uiva
[valsam fantasmas
de gente célebre?]
circulo a figueira-relíquia
aquela
da nau do Giuseppe
e o que penso
desenha-se fiel
em meu semblante
de quem levita
estou em casa
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008
labirinto de acesso
tu: castelo fincado em nuvens
fortaleza com asas
ou um símbolo melhor
e que me escapa
eu sei
[eu já sempre sabia]
devo é calar:
minha fala denuncia
a vossa nobreza
minha tanta ignorância
devo fechar os olhos
sobretudo isso:
fechar os olhos
em silêncio
e de olhos fechados
só assim
talvez
uma chance de sorte
um passo bem dado
uma pista
do teu labirinto de acesso
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06:00
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
claridades
‘alcança-me a lua’
eu te peço, distraída
e baixo os olhos na direção da areia
quilometragens de praia vazia
o Atlântico lambendo terra
mais ou menos firme
um quase silêncio
espelhada na areia úmida
nem devia dizer que é lua cheia
a fim de evitar um chavão
mas é
e bem cheia
e eu já quase confesso
mas porque inda é cedo
invento uns rodeios
eu te distraio
disfarço e tudo
mas não agüento
já logo digo
andar por aqui
pela vida e tal
é até bem bom
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
enquanto caía a luz nos Molhes
eu estava sem máquina
prum registro ad eternum
eu andava obrigada
a gravar na memória
[apenas na memória]
aquelas relações de fauna
que aconteciam tão bem
os botos-auxiliares-de-pesca
não sabiam o que é cansar
e homens-pescadores
tinham água na cintura
e redes em punho
e à espera de cardumes
também um passaredo
passarava sem fim
aquele menino se perdia
corria sem ter pra onde
nem sabia o que olhar
era cena muito vivaz
uma trama festiva demais
pros olhos de alguém
qu’inda nem falava
e mesmo eu
com retinas já crescidas
onde nem cabia tudo
tanta água tanta luz
e energia e gente
e boto e gaivota
e garça e peixe
numa cadeia alimentar
que funcionava em paz
mesmo eu me espantava
e me esmerava e bem tentava
fazia um tudo pela retenção máxima
daquele entardecer particular
segredando comigo
o melhor de tudo
[: lá estar
sem máquina]
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19:44
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008
na areia da ampulheta
não se percebe
há pressa demais
é tempo de máquinas
vazios mascarados
infartos fulminantes
primaveras sem efeito
superações modernidades
das quais de verdade
nem se gosta tanto
não se percebe
há pressa demais
mas é peculiar a quem se pense
intuitiva feito respiração
a ampulheta de tempo-em-potência
que deixa ler o intraduzível
nos olhos dos amores
a ampulheta onde cabe a compreensão
da água
e das demais seivas da vida
e da importância de viver avivando jardins
a ampulheta que permite
na relação com o mundo
um corpo-a-corpo
uma alma-a-alma
um fôlego-a-fôlego
um espasmo-a-espasmo
uma vida-a-vida
um tudo-a-tudo
no processo de ser pessoa
para que ninguém aconteça em vão
e seja o melhor em si
às vezes sem dor
e até em silêncio
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sexta-feira, 29 de agosto de 2008
logo cedo
meu amigo acorda
ao som de cigarras
programadas
pontuais
no alarme do celular
quem me desperta
é o vento sul - uivando
e um passaredo
barulhando a esmo
logo cedo
em meu telhado
nada mau
nada mal
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domingo, 29 de junho de 2008
domingo

um sem-fim de pessoas
não suporta domingo
o suposto dia de tédio
já eu, que nos dias úteis
muito mal respiro e vivo
tenho no domingo a redenção
o fôlego, a glória, o carpe diem
e me apego ao dia inútil
como um devoto se apega ao santo
o domingo é meu dia santo
e nele eu desejo tudo
o sono sem despertador
o incenso psicodélico
a fluência multiidiomas
uma corrida até saturno
silêncio voz sombras
riqueza de indefinições
estranhezas que devo ou não
todo o impensado eu quero
temperar com manjericão e alecrim
pintar o teto em aquarela
remeter umas quinze cartas
voar sozinha de parapente
fazer lista de intenções
e um caleidoscópio artesanal
sem prazo de validade
quero escrever tanta página em prosa
e a ampulheta só comporta uns versos
uso meu domingo salvação
listando vontades sem fim
e me cansa enumerar tanto
e me cansa fazer tão pouco
e começo a segunda-feira
disparando sem fôlego
na largada dos dias úteis
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domingo, 22 de junho de 2008
Leito vazio
Poeta sem poesia
Essa, sem versos
Que rumo inverso
Que me sobrou
Olha o que sou:
Músico sem música
Essa sem nota
O que me denota
Culpa de quem me criou
Bem, o que sou?
Escritor sem página
Essa, sem tinta
Mesmo que sinta
Já se cansou
Não sou aquela folha em branco
Sou o vazio do rio de teu pranto
Sou de tua liberdade, a prisão
Porque és aquela canção
Que cantar não posso
O poema e o remorso
Que não o declamarão
A eterna escravidão
Dos meus amores
És dos sabores
Que nunca terei
Porque sou os passos que nos aproximam
E és a distância da rotina
Que nos separa
Sentou-se no leito vazio
E fez correr esse rio
Pro mar da sua infelicidade
Sucumbindo a verdade
Nasce, como o verde,
Entre as pedras
A saudade, entre as trevas,
Do meu peito
Brota... daninha
E morre sozinha
No jardim secreto de meu coração
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domingo, 16 de dezembro de 2007
Agonia da Criação
As palavras na tela, no papel, surgem
Ásperas, irônicas, delirantes
Aparentando precisão de bisturi
E quase nunca tão exatas
Quanto latejantes n’aflita mente
Do bem-(des)aventurado poeta
Os sentimentos sem nome.
Mas há tanta ingenuidade no mundo...
O leitor ingênuo supõe-se condoído
Por mera empatia à Agonia Criadora
Mas jamais saberá precisamente
Quanto Ela dói a mais na fonte
Quanto a Poesia arde em excesso
Antes mesmo de ter um corpo
Enquanto é só aparição, impertinência
Demônio com urgência de nascimento
Tormento inadiável do poeta alumbrado.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Giratório
que tem quase a altura do mundo
espreitando o renovar-se
que há na claridade da manhã
com suas particularidades de sábia
nem me custa compreender
que enquanto a saudade
o amor
e as sentimentalidades todas
acontecem e desacontecem
o ipê secular aqui ao lado
não se farta de florir
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Suyan de Melo
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