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domingo, 5 de abril de 2009

todos os dias

Querido meu Deus,
muito, muito, muito grata por tudo. Inclusive pelas dificuldades. Muito grata.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Sobre o Artur, que palavras posso usar?

Artur da Távola despediu-se deste mundo já faz uns dias, e só hoje tenho condições de articular qualquer coisa sobre ele. É que fiquei órfã. Ficamos. Mesmo os que nem o conheciam.

Artur entrou em minhas leituras há oito anos, quando, por sugestão dum amigo, catei quatro de suas seleções de crônicas num sebo. Todas publicadas no fim dos anos setenta. Nasceram comigo, com o pessoal da minha geração. A diferença é que eu vou morrer, assim como meus contemporâneos, nossos ascendentes e descendentes. Assim como o próprio Artur. Mas, expressões claras dum ser com uma sensibilidade e agudeza de espírito incomuns, suas crônicas permanecem, e sempre muito atuais. É um conforto. É um alívio. É uma obviedade. Eu sabia disso desde quando o conheci.

As suas crônicas nada têm de raso ou efêmero. Quem as conhece, sabe do que falo:ninguém passa pelas palavras dele com coragem para continuar sendo a mesma pessoa. Todos os adjetivos que eu, tolamente, me arriscasse escolher para caracterizá-lo, ah, que ingênua, não bastariam. Eu não encontraria as expressões que dissessem em meu nome o meu sentimento traduzido.

Para os aventureiros interessados, sugiro especialmente ‘Cada um no meu lugar’, sobre o qual o próprio autor escreveu: “A pessoa, quando fala deste título, diz ‘Cada um no Seu lugar’ e não ‘Cada um no Meu Lugar. Isso mostra como até inconscientemente somos reacionários. É a tendência a rechaçar o novo e permanecer até com os sons habituais. Cada um no ‘Meu’ Lugar é exatamente a antítese de uma sociedade que quer cada um no Seu lugar, impedindo o crescimento e a democratização interna dela, sociedade, e, delas, pessoas”.

Recordando o meu feliz garimpo no sebo carioca, tenho aí o melhor exemplo de diferença entre preço e valor. Cada um dos quatro livros custou três reais. E eles passaram a constituir a minha bíblia. A minha bíblia custou doze reais. E, no entanto, não tem preço. São livros para serem devorados com a urgência possível.

Desde então, passei cinco anos ensaiando mentalmente o e-mail que eu enviaria ao Sr. Távola para contar-lhe exatamente que ele era o autor da minha bíblia particular. O problema é que eu nunca era capaz das palavras que ele merecia receber. Até que um dia eu fui. Ou fui cara-de-pau o suficiente para achar que sim.

Vinte dias depois chegou-me a resposta, de uma gentileza ímpar, sendo que um trecho era esse: “A meu convite, venha conhecer em versão digital o meu primeiro e-livro, com crônicas sobre um Rio não óbvio, às vezes escondido. Rio, um olhar de amor”. E baixando o livro a partir deste link li novas delícias, agora duma safra bem recente. E pensar que se tivesse demorado oito anos, ao invés de cinco, pra me encorajar... Ai!

Para encerrar, e nem de longe encerro o que tenho a dizer/pensar/sentir sobre ele, valho-me de sua crônica “Há sempre uma perda em cada encontro”. É onde ele diz que felicidade tem mais a ver com “tristeza feliz” que com alegria. Porque “tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros. [...] Quem se alegra demais, se distancia da felicidade. Felicidade está mais próxima da paz que da alegria; do silêncio que da festa; do encontro que do debate. [...] Felicidade está perto da tristeza, porque a certeza da perda se instala a cada vez que estamos felizes. [...] Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um ‘e depois?’ após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada”.

E eu, que não estou nada alegre, mas imensamente feliz, triste-feliz, pelo encontro que tenho há anos com o melhor do que seja Artur (com que palavras eu poderia expressar o tal não-sei-quê inominável que a arte dele provoca em mim, e de modo que já servisse de agradecimento?), eu agora peço licença. Vou ler a bíblia.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Assombros no calendário

Aconteceu hoje cedo. Foi um soco na memória.

Eu estava no meu trabalho elaborando uma certidão. Finalizando o documento, constavam local e data, Laguna, seis de março de 2008. Foi aí que eu paralisei, com cara de demência. Eu não esperava um susto daqueles.

Como assim, seis de março, se ontem mesmo foi réveillon? Eu não entendi. Até agora eu ainda não entendi. Tenho certeza que trinta e um de dezembro foi ontem, eu estava em Copacabana rodeada de pessoas que amo muito, o céu cravejado de luz, a noite era dia, os fogos de artifícios mais irreais que já vi, uma queima de vinte e três minutos, nem se sabia pra onde olhar, respirava-se aquele ar de 'seremos ainda mais felizes no ano novo'. Foi ontem, eu juro pela alma de Nelson Rodrigues.

O que mais me apavora é que a vida está passando rápido demais, demais, pra mim, que tento não perder nenhuma boa chance de nada, por menor que seja. Que levo a sério o carpe diem. Que não sofro de chiliques. Que faço artesanato com sucata. Que sinto a respiração das plantas. Que como comida de três dias. Que vivo me alongando, forçando o limite dos músculos, dos tendões, da dor, pra melhorar a consciência corporal. Que arrisco. Que sou compulsiva por garimpar sebos e compro dezenas de livros por vez. Que já dormi numa cama onde embaixo dormia solta uma pittbul de quem eu não era íntima. Que fui de Araranguá a Recife de ônibus, colecionando histórias memoráveis. Que já entrei no carro errado, na festa errada. Que pari aos quinze anos. Que tenho amigos até em Bangladesh. Que reciclo papel. Que inspiro profundamente, piso a terra, pulso com o mundo. Que ainda mantenho correspondência postal. Que faço horta. Que quero fazer tudo ao mesmo tempo, e me perco no relógio, no calendário, mas cheguei ao ponto de aceitar e respeitar meu ritmo próprio. Que não tenho o menor problema em rachar de rir ou chorar em público. Pra mim, que me desespero porque o Machado tinha razão, 'Matamos o tempo; o tempo nos enterra', e eu desejo fazer tanta infinidade de coisas antes da terra me chegar por cima... Pra mim, que num contexto que reputo válido tento efetivamente viver, o tempo está voando mais, muito mais do que posso acompanhar até mentalmente.

Então fico tentando imaginar como é a percepção da passagem do tempo para as outras pessoas. Especialmente para as que têm chiliques demais, preconceitos demais, ressalvas demais. Pra quem vive, nos versos de Cazuza, '[...]Remoendo pequenos problemas/Querendo sempre aquilo que não têm/Pra quem vê a luz/Mas não ilumina suas minicertezas/Vive contando dinheiro/E não muda quando é lua cheia[...]'.

E nos vinte minutos que levei pra escrever este pequeno rol de assombramentos, sei lá que dia já deve ser...

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Escavando tesouros

Um breve comentário - em torno de dois exemplos - sobre a tendência humana a precisar da ajuda alheia para valorizar as próprias coisas.

Tem-me ocorrido seguidamente: desde que mudei para outra cidade, as pessoas de lá me fazem a invariável pergunta: ‘Vieste por que, se não tens família e nem conhecidos aqui?’. E a minha resposta é sempre a mesma: ‘Por amor. Conheci Laguna e caí de amores. Não só pelas praias, paisagens, mas mais ainda pelo contexto histórico, pela memória de Anita, pela nostalgia, pela magia desse ar, desse clima, por tudo!’. E ninguém disfarça, em maior ou menor grau, uma reação de surpresa.

É como se não se dessem conta, sozinhos, de que sua cidade justifica a atitude. E isso que não sou ingênua de pensar que se trata dum lugar perfeito, o paraíso, a Pasárgada. De qualquer forma, arrisco um palpite: talvez porque o cotidiano lhes oferece aquele cenário todo de uma forma automática, natural, gratuita, em geral não se dão conta da riqueza que têm, em vários sentidos. E eu não afrouxo no tom de voz, mantenho firme e claro um amor pela minha cidade adotiva, sem renegar, contudo, o que tenho pela minha terra natal e pelos amigos que nela vivem.

Num outro exemplo, é como se andasse alguém pelo meu jardim e fizesse uma festa quando visse uma flor, ou uma fruta, ou uma árvore, ou mesmo uma pedra, algo especial cujo valor até então passasse despercebido por mim. E que, só a partir dessa intervenção alheia, certamente se transformaria no tesouro do meu jardim.


[Na imagem, um exemplo possível da nostalgia de que falo, logo ali, no entardecer lagunense.]

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Triunfal

Cheguei em Laguna, minha nova cidade, assim: desembarquei na rodoviária às 4 da matina e fui de táxi até o hotel de libaneses onde tinha feito reserva para 17 dias. Havia ligado no dia anterior para avisar o horário em que chegaria, e me informaram que não havia problemas em chegar de madrugada. No entanto, às 4 lá estava eu diante do hotel fechado e escuro. Não atenderam a campainha. Liguei e, finalmente, uma alma veio me atender. Era um dos donos, e disse que o hotel estava lotado. Eu, a mais ingênua das lagunenses adotivas, lembrei-lhe que havia feito reserva, e pago adiantado. Mas ele, constrangido, rindo sem jeito, disse-me no seu português sofrível que ‘não, lotou mesmo... a senhora aguarda aqui na recepção, que às 6 o meu pessoal vai embora e sobra quarto’. Não compreendi quem era o ‘seu pessoal’, mas, sem muita opção, tentei esticar-me num sofá e esperar que chegasse logo a luz do dia. Não foi fácil, porque vira-e-mexe chegava alguém, ligavam para o padeiro, o leiteiro, o cozinheiro, falavam de reservas e blablablás inerentes a hotéis. E eis que chega o horário que eu esperava, e desce um povo sem fim falando libanês, chorando, bradando e se despedindo (imagino). Eram abraços maternais desconsolados, pois uns ficavam e outros partiam... Parecia mais uma despedida italiana, com todas as gesticulações de direito. E eu, que só queria dormir numa cama decente, fiquei ali tentando fingir naturalidade em meio a um povo desconhecido, testemunhando constrangida aquela cena cheia de sentimentalismo libanês (universal?!). Não bastasse, num repente eu me viro para conferir a minha bagagem, uma única mala, mas que pesa uns duzentos quilos. Não estava onde eu a havia deixado, logo ali ao lado do sofá. Perguntei se a haviam guardado, e descobri que não, que o libanês que me atendera estava levando-a para o carro, confundida com as bagagens dos seus familiares. Por questão de minutos, agora a minha mala estaria no Líbano. Isso se tivessem pago a taxa de excesso de peso no embarque, afinal duzentos quilos são duzentos quilos. O meu único ponto positivo nesse episódio do sofazão é que o libanês resolveu me compensar com uma diária a mais. Se não deu pra perceber, digo com todas as letras que estou num hotel que parece aqueles de filmes de sessão da tarde, ‘onde tudo pode acontecer’. Mas não precisam ter pena de mim: 17 dias passam voando, e, além do mais, na verdade eu até me divirto com certos incidentes supostamente odiáveis. Não é porque toda a minha bagagem quase foi parar no Líbano que eu vou deixar de encerrar essa postagem com o desejo sincero de sempre: Carpe diem.